A terceira revolução

Manifestação popular no Rio de Janeiro (Foto: O Globo)

Manifestação popular no Rio de Janeiro (Foto: O Globo)

Há uns 5 mil anos um macaco pelado começou a se destacar entre as espécies do Planeta Terra. Se houvesse alguém voando acima da atmosfera naquela época, veria lá do céu as comunidades desses primatas aprontando das suas – de tão gigantes que eram as estruturas que esses seres erguiam (pirâmides, templos, muralhas) elas podiam ser vistas do espaço. O nome desse macaco é ser humano. E a revolução que ele iniciou naquela época tem a ver com a capacidade de juntar grandes quantidades de pessoas para erguer obras monumentais.

Foi essa a primeira grande revolução tecnológica humana. A partir daí tornou-se possível juntar milhares de braços e cabeças para transformar a Terra. Bastava para isso que houvesse um rei suficientemente rico e poderoso, capaz de mobilizar a mão-de-obra, usando como incentivo recompensas materiais e ameaças físicas. E surgiu aquilo que chamamos de civilização.

No final do século 18 começou uma segunda grande revolução. Foi quando indivíduos especialmente endinheirados passaram a ter recursos suficientes para mobilizar mão-de-obra e construir coisas grandiosas – mesmo que não fossem reis. Era a chamada Revolução Industrial, quando tecnologias como a linha de montagem e as ferrovias tornaram possível produzir em quantidades gigantescas e conectar o mundo todo com rotas comerciais.

Pois então: um jeito de olhar para as grandes mudanças que estão acontecendo no mundo agora é que estamos às portas de mais uma grande revolução. Se, a partir da Antiguidade, os homens, comandados pelos Estados, tornaram-se capazes de transformar o mundo, e, com a Revolução Industrial, esse poder passou para as mãos das grandes empresas, agora, na aurora do século 21, pela primeira vez parece possível que uma grande quantidade de primatas pelados conectem-se sem comando central. Sem Estados ou corporações acima deles. Apenas indivíduos independentes, ligados uns aos outros pela internet, fazendo obras cada dia mais grandiosas, movidos não por salário ou ameaça de castigo, mas pelos seus próprios interesses.

Quando a Revolução Industrial estourou, no século 18, surgiu uma imensa demanda por novas instituições, que democratizassem o poder antes concentrado nas mãos do Estado. Eleições democráticas, partidos políticos, jornais, poderes que se contrabalançam, sociedade civil organizada, direitos humanos, organizações supranacionais são exemplos de invenções que se tornaram possíveis naquela época.

Pois agora, quando o poder mais uma vez está sendo democratizado, surge novamente uma demanda por um novo tipo de instituição. Se a Revolução Industrial criou a ideia de que o poder de uma só pessoa poderia ser distribuído entre centenas ou milhares, a revolução da conexão, pela qual estamos passando, dá a sensação de que esse poder pode agora ser pulverizado entre todo mundo.

É isso que estamos vendo acontecer. É isso que significam as manifestações que estão lentamente paralisando as ruas do mundo todo, de Túnis a Nova York a Atenas a São Paulo. Não se trata apenas de gente pedindo novas organizações – o que eles querem é um novo jeito de se organizar. As instituições que temos hoje, inventadas 200 anos atrás, não dão mais conta de nos representar.

As manifestações que assustaram e encantaram o Brasil ao longo do último mês não são apenas contra um partido político: são contra todo o sistema de representação. Mais que isso até: são contra todas as instituições sobre as quais se assentam nossa sociedade, inclusive a mídia, a religião institucionalizada, a justiça, as cidades, o lazer. Trata-se de conceber as bases de uma nova era. Tem um mundo novo nascendo. O nosso mundo industrial, vejam vocês, ficou obsoleto.

O mundo que está ficando para trás era caracterizado pela lógica da linha de montagem: grandes sistemas baseados em padronização e eficiência, movidos a energia fóssil. Já o mundo novo que está nascendo parece-se mais com um ecossistema: relações incrivelmente complexas envolvendo milhões de conexões entre suas partes, onde cada indivíduo está conectado a todo mundo e o poder está distribuído por todo lado.

Dito assim, parece vago e utópico – e é, já que estou falando de coisas que ainda não existem. Mas a construção dessas coisas é a missão da nossa geração. O mundo novo que estamos criando agora definirá a humanidade por séculos, para o bem e para o mal. Está em curso a terceira grande revolução da história da humanidade.

(Fonte: Denis Russo Burgierman, Superinteressante, 09/07/13)

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